Meu 9° dia no Caminho da Fé a Pé – do Alto da Serra de Luminosa a Campos do Jordão, Visual Descomunal a Pés Cansados na Chegada
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Se tem uma coisa que o Caminho da Fé nos ensina todos os dias é que a nossa jornada é feita de contrastes. O nono dia começou lá no alto, com a energia renovada, e terminou como um dos dias mais duros e exigentes para os meus pés até agora. Mas vamos do começo, porque cada quilômetro dessa história vale a pena ser contado.
A Saída da Pousada Panorâmica e as Conclusões do Dia
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Deixamos para trás a Pousada Panorâmica logo cedo. Que lugar
fantástico! O visual de lá de cima é simplesmente descomunal, e o café da manhã
reforçado nos deu o gás inicial necessário para encarar o que vinha pela
frente. Nossa meta do dia era bater em Campos do Jordão, estimando algo em
torno de 32 quilômetros de pernada.
Olhando para trás, a nossa estratégia no dia anterior foi
certeira. Saímos um pouco mais tarde da pousada Casa da Fazenda, tocamos num
ritmo bom até Luminosa e paramos na padaria da praça para descansar até umas
14h30. Esse descanso estratégico nos poupou do pior horário do sol. Embora a
subida de Luminosa seja, sem dúvidas, a mais dura do Caminho, a nossa
divisão de trechos — começando com 20 a 25 km nos primeiros dias e puxando para
médias de 30 km depois que o corpo fortaleceu — provou-se ideal. Em comparação
com 2018, quando vim forçando médias de 40 km por dia, prolongar o percurso
para 11 ou 12 dias tem sido uma escolha muito mais rica. Ouvir as histórias das
pessoas na estrada faz a gente perceber que os nossos problemas não são nada
perto do que os outros enfrentam.
Cruz de Pedra, Trilhas e o Apelo pelo Bom Senso
Logo no início da manhã, passamos pela Cruz de Pedra, um dos
pontos mais emblemáticos e espirituais de todo o percurso, marcando também a
divisa entre Minas Gerais e São Paulo. A partir dali, o relevo seguiu naquele
formato clássico que o peregrino conhece bem: um sobe e desce constante,
cercado por lindos pinheiros e araucárias.
Saímos na pista vicinal que liga São Bento do Sapucaí a
Campos do Jordão e logo entramos em uma trilha de mata fechada. O lado bom? Uma
sombra deliciosa que nos protegia do sol. O lado ruim? Ver de perto o impacto
da falta de consciência ambiental de alguns peregrinos que passam por
ali. Fiquei chocado com a quantidade de papel higiênico deixado nas margens da
trilha e o acúmulo de sachês de gel de carboidrato jogados no chão — algo muito
comum na galera da bike, mas que também envolve caminhantes. É triste ver isso,
porque os donos das terras e os ambientalistas acabam querendo fechar esses
acessos por causa da falta de educação de uma minoria que faz a opção pelo
menor trecho do caminho.
Outra coisa que me chamou a atenção foram as fitinhas
amarradas nos troncos das árvores. Galera, amarrem na cerca, no mourão, mas não
no tronco! Isso estrangula e pode matar a árvore. Vamos ter bom senso para
preservar esse caminho lindo.
O Perigo do Asfalto e uma Lição de 800 km nos Pés
Saindo da trilha, passamos pelo Barão de Montez. Dali para
frente, encaramos cerca de 4 km de asfalto em direção ao bairro de Campista.
Para mim, esse é um dos trechos mais perigosos do Caminho devido ao
tráfego de veículos. A minha dica de ouro aqui é simples: nunca dispute
espaço com um carro. Viu que o veículo está vindo? Dá um passo para o lado,
sobe na guia, espera ele passar e depois volta a caminhar. Para quem gosta de
andar com fone de ouvido, esse é o momento de guardá-lo e redobrar a atenção.
Ao final dessa descida no asfalto, na divisa entre São Bento
e Campos, encontrei novamente o Zeca, um peregrino lá de espetacular. O
cara já estava com nada menos que 800 quilômetros acumulados no pé,
vindo de uma jornada longa. Perguntei qual era o segredo do calçado dele, e a
resposta foi surpreendente: papete e meia! Enquanto muita gente sofre e chora
usando botas pesadas, o Zeca estava rodando há 30 dias na estrada com o pé seco
e sem nenhuma bolha sequer. Um exemplo vivo de simplicidade e
resistência. Ele e outro amigo, cruzaram conosco esbanjando sorrisos e alegria
o tempo todo. Que energia fantástica!
A Reta Final: O Pior Dia para os Meus Pés
Depois de Campista, o asfalto deu uma trégua e voltamos para
a terra, mas as subidas pareciam não ter fim. Sabe aquela sensação de que você
vai dobrar a esquina e a estrada vai planar? Pois é, ela continuava subindo no
meio das chácaras de Campos do Jordão.
Quando finalmente entramos na área urbana e o solo mudou
definitivamente para o asfalto duro da cidade, o impacto dele nos pés cobrou o
seu preço. O asfalto não tem o mesmo amortecimento da terra, e cada passo
parecia "amassar" a sola do meu pé. Talvez pelo cansaço acumulado da
subida de Luminosa no dia anterior, somado à descida quente no asfalto de
Campista, a verdade é que os meus pés começaram a queimar e a doer demais.
Cruzei a avenida principal e passei pelo centrinho de Campos
focado apenas em chegar à Pousada Primavera. Devo confessar: sem dúvida
nenhuma, do ponto de vista físico e de dor nos pés, esse foi o pior dia de
todos até aqui.
Terminei a jornada colocando gelo e com os pés bastante inchados, aquela sensação de que o corpo chegou ao limite do dia. O Caminho da Fé é assim: ele te molda na dor, te ensina na superação e te acolhe na chegada. Agora é descansar, ver como o corpo vai reagir ao acordar amanhã e, aconteça o que acontecer, seguir em frente. A caminhada continua!
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Bom Caminho!
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